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  SenSchualidade

O trem sacolejava devagar, como um balé mecânico, acompanhando a repetitiva sinfonia dos metais que rangiam. Parecia incorporar ao seu movimento a melancolia da velha cidade, que já se aproximava. Aquela terra ainda sentia, vivas, as cicatrizes do grande conflito que havia terminado. A barbárie, que depois seria  conhecida como a I Guerra Mundial.

            Corria o ano de 1918, nos vagões, os atingidos pela guerra, que sentiram as perdas na carne e no coração, procuravam agora aquela cidade. Viena ainda parecia ser capaz de devolver à vida normal aqueles sofridos homens e mulheres, involuntários personagens  da triste história dos conflitos entre os humanos. Reserva cultural e econômica de um vasto poder, Viena e o agora pequeno território austríaco eram o que sobrava do grande Império dos Habsburgos.

            Em um dos vagões , dois jovens que não se conheciam, estavam próximos, e contrastando com a tristeza que se via à volta, mostravam a resistência,  e a inquietude sagaz,  dos que eram inteligentes.

Egon tinha 28 anos, sentia-se à vontade no trem, que sempre conheceu muito de perto. Seu pai era ferroviário, e também o seu avô. Cresceu perto daqueles sons. O trem parecia pertencer à sua família.

Wilhelm era mais jovem, tinha 21, olhar penetrante, curioso, voltava agora para a universidade, onde estudava medicina.

-São interessantes seus desenhos. – disse Wilhelm, enquanto apontava para uma grande pasta, cuidadosamente depositada sobre o banco vazio ao lado de Egon e que deixava entrever algumas aquarelas.

-Veja-os. - disse Egon, mostrando o visível contentamento dos artistas quando vêem sua obra observada.

- São diferentes de tudo que já vi! – Exclamou Wilhelm, visivelmente interessado.

            O Danúbio agora aparecia sob a ponte ferroviária. Suas águas como a vida, eram sempre iguais, sempre diferentes. Egon logo se sentiu à vontade para conversar com aquele quase garoto, que  havia quebrado o silêncio naquele trem de atmosfera triste.

-Por causa delas fui para a cadeia em Neulengbach, antes da guerra. – Disse Egon, inflamado,  mostrando ressentimento. – Consideraram o meu trabalho imoral. Agora, depois de todas estas vidas perdidas, quem sabe o mundo perceba que imoral é a guerra, imorais são os poderes que separam os que se amam, imoral é a hipocrisia.

Wilhelm, um pouco surpreso, se animou à continuar a conversa.

-Se me permite um comentário,  observo em seus quadros uma tensão muscular muito grande, principalmente nas figuras masculinas, que acredito representarem  você mesmo.

            -É, são realmente auto-retratos.

            -E neste outros, você está duplicado – continuou Wilhelm-

acho  que o seu interesse em se auto retratar, e esse espelho que se revela nas figuras duplicadas, remete ao seu pai. Acredito que também aí está o mito de Narciso , revelado. Você deve ser muito voltado à si.

-Você tem razão – observou Egon, com espanto – eu fui muito ligado à meu pai, que já morreu. Ele admirava o meu trabalho, e acredito que essa exibição exagerada da minha própria figura, seja para compensar a sua falta. Onde você  conseguiu essa habilidade de avaliar um perfil de comportamento através de um trabalho artístico?

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            -Tive contacto na faculdade de medicina com um médico meio revolucionário, o Dr. Freud – respondeu Wilhelm, agora interessado em falar de suas próprias coisas. - Ele estuda  comportamento humano baseado nas expressões do subconsciente, um conceito novo. Freud acha que o mistério da alma está nos dramas psíquicos da infância. Basta desvendá-los para chegar à paz mental. Freud considera que os sonhos são manifestações deste inconsciente, e acho que a arte, como os sonhos, origina-se no mais profundo Eu, e assim pode revelar a alma. Eu me interessei muito por esta visão, mas também tenho minhas próprias idéias.

            Egon estava muito surpreso, diante dos novos conceitos de inconsciente e comportamento humano que lhe eram agora inusitadamente ensinados.

-Mas você é muito jovem, para dominar esse conhecimento, - disse Egon.

-Essa é uma nova ciência – disse Wilhelm – está sendo muito contestada,  mas acho que os jovens estão mais abertos ao novo e  eu logo tive acesso à ela porque estudo muito, e não perco muito tempo em farras e tolices.

-Veja estes outros retratos. – Disse Egon, agora mostrando aquarelas de nús femininos. - Não sou um maníaco por sexo, mas gosto de representar o corpo e o erotismo.

-Eu também trabalho com a sexualidade humana, e acho pessoalmente que este é o caminho para o subconsciente, o Id de Freud. Acredito que os conflitos sexuais mal resolvidos provocam tensão muscular, dores e doenças psíquicas e orgânicas. Posso ver esta tensão nos seus auto-retratos masculinos. Nos femininos, observo tensão em alguns e neste aqui observo calma, a calma da mulher com sua sexualidade e amor atendidos. Qual o nome que deu?

-“Mulher Sentada Com a Perna Esquerda Dobrada” – respondeu Egon com um sorriso irônico, diante da obviedade do título.

            A estação de Viena se aproximava, o trem já diminuia seu chacolejar. Todos os que viajavam procuravam um novo pacto. O  pacto necessário para a vida continuar depois de Armageddon inacabado. Novo pacto, que só  mentes corajosas podem construir, diante das crises do intelecto humano. O trem parou, a conversa entre Egon e Wilhelm não podia mais continuar. Aquele breve momento, tinha sido uma concessão  do   espaço e do tempo cósmicos, que se dobrou por um  instante diante da  energia do pensamento  humano.

-Qual é seu nome? – perguntou Egon.

-Wilhelm Reich - respondeu o jovem- e o seu?

-Egon Schiele. – disse o pintor, e com atenção avisou: -Lembre-se, fui preso por pintar a sexualidade, tenha cuidado ao lidar com isso, você pode ter problemas. Boa sorte!

-Adeus – disse Reich.

E desceram do trem e enfrentaram o seu destino...

 

Egon Schiele, pintor austríaco, foi junto com seu mestre Gustav Klint uma das maiores expressões da arte moderna mundial. Morreu neste mesmo ano,  1918,  na epidemia de gripe espanhola. Três dias antes , havia morrido Edith,  sua mulher e modelo de muitos trabalhos, também por causa da mesma epidemia.

 

Wilhelm Reich, médico austríaco, foi junto com Freud e Jung , pioneiro da  psicanálise.  A sua teoria é a base  da Bioenergética, uma técnica que ajuda o indivíduo à reencontrar-se com o seu corpo.  Foi um dos maiores estudiosos  da sexualidade humana.  Considera que a expressão sensual é produtora de uma forte energia corporal, com reflexos em todo o funcionamento psíquico e orgânico do corpo. Morreu em 1957, na penitenciária de Lewisberg, Pennsylvania, EUA, onde cumpria pena, pela divulgação de suas idéias sobre sexualidade.

 

Nota: Egon Schiele e Wilhelm Reich, nunca se encontraram. Foram contemporâneos em Viena, mas Schiele morreu em 1918, enquanto que o primeiro contacto de Reich com Freud e a psicanálise só aconteceu em 1919. Esta livre criação só pôde existir por causa das asas  que o ato de escrever nos oferece.

 

 

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